
Eu Sou a Zélia, as vezes Zélinha do planeta Intelectus, tenho 56 anos, sou Professora e Arte Educadora. Na educação eu costumo criar diversas personagens mulheres, fortes, assim com eu. Para mim ser mulher é amar a sí mesma e sentir capaz de superar as barreiras do preconceito “sexo frágil”. O papel da mulher na sociedade é importante, é soberano, ela tem sensibilidade e espírito de liderança, sabe tomar decisões no momento certo.
Aqui no município de Guaíba a visibilidade da mulher é pouca, mas a sua voz ativa está despontando na política partidária, já no âmbito da educação ainda é preciso muita luta. Eu me sinto com muito poder, a fé na minha capacidade e no Ser supremo me levam a acreditar que é possível vencer a batalha com os monstros criados pela sociedade preconceituosa. Eu vou conseguir superar essas tais barreiras que me impedem de alçar o meu voo rumo às minhas conquistas, pode demorar, mas eu consigo. O meu querer é superior a todas as mesquinharias e pequinês dos “homens”. Sou mulher negra, já me senti impotente muitas vezes, lidar com as impossibilidades no seio doméstico foi desafiadora. Durante 14 anos eu alimentei a ideia de que eu precisava estudar e consegui. Eu perseverei e ainda persevero não desisto jamais de conquistar o meu espaço. Sou órfã desde os meus 8 anos de idade presenciei a violência doméstica meu pai era um alcoólatra. Foi muito difícil enfrentar o mundo sem o colo de mãe e o carinho da família. Me criei trabalhando de empregada doméstica desde meus 10 anos, e assim fiquei até os meus 19 anos me submeti a escravidão, só tinha direito a um teto e a um prato de comida, valeu a experiência para me tornar mais humilde. Mas eu tinha um sonho, frequentar uma universidade e ser professora, então eu corri atrás dele. Hoje o trabalho infantil é repudiado, são novos tempos. Eu me casei com o meu primeiro namorado aos 19 anos. Logo chegaram os filhos eu queria muito uma família a qual me dediquei. Quando meu filho mais velho completou 14 anos e o caçula 11 anos finalmente eu consegui estudar. Foi em 1996 que retornei à escola para cursar o ensino médio. Nossa! Eu estudava de manhã com os jovens eu tinha 34 anos. Muitas piadas eu ouvia até mesmo certos professores (O que essa velha quer estudando agora?)Ela tem que ficar em casa para cuidar dos filhos. Não dei ouvidos, conclui o ensino médio e fiz vestibular para Letras, a primeira etapa de meus sonhos foi concretizada. Após cursar duas cadeiras tive que desistir, por motivos financeiros e por desestímulos. Fiquei de 99 até 2002 afastada da universidade. Durante estes dois anos que fiquei afastada continuei insistindo e conversando com a família que era importante eu estudar. Em 2002 retornei para a universidade, logo quis saber o que eu poderia fazer para ter desconto nas cadeiras. Foi então que comecei a cantar no coral universitário da ULBRA. No ano seguinte fui convidada pela coordenação do Curso de Letras para ser monitora do curso e também fui Presidente do centro acadêmico do curso de Letras. Participei de um projeto social onde eu contava histórias para crianças carentes. Fui observada pela Diretora da Universidade e pelo capelão que me convidaram para assumir o atendimento social. Bem, eu tinha duas monitorias cursava cinco cadeiras e pagava na época 67,00, assim fiquei por três anos. No 7º semestre o Estado chamou-me um para contrato emergencial. Me formei em 2007. Vejam, são 8 anos dentro de uma universidade. Continuo a estudar, após dez anos de formada, estou concluindo a Pós-graduação em Educação Inclusiva. Ainda luto por meu espaço no mercado de trabalho, amanhã defendo meu TCC da pós- graduação, sou Arte Educadora, sou empoderada, nada me assusta.
📷 Katherine Scaranto
📍Praça Gomes Jardim e Escadaria Quatorze de Outubro - Guaíba/RS





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